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O que tememos?

02/05/2020

O que tememos?

Padre Raimundo Elias - Diocese de Crato (CE)

     Sem sombra de dúvidas, nesses últimos tempos, fomos todos tomados, repentinamente, por um sentimento de medo descomunal; alimentado, sobretudo, pelas imagens impactantes que não cessam de chegar até nós, instantemente, das milhares de pessoas que estão adoecendo e morrendo em todo o planeta, por conta da enfermidade do momento. Ora, do que temos medo, afinal? Essa é a questão que trago agora para reflexão.

     O fato é que, quando vemos tantas pessoas, iguais a nós, adoecerem e morrerem, torna-se praticamente impossível não pensarmos na nossa própria condição de seres mortais e na eventual possibilidade de que isso também nos possa acontecer, em um futuro próximo e carregado de incertezas, para o qual caminhamos. E, simplesmente, não conseguimos suportar essa ideia.

     Entretanto, se analisarmos a questão com mais profundidade, logo nos daremos conta de que não é propriamente da morte que as pessoas têm medo. É uma outra coisa, muito mais grave e perturbadora, que nos assusta. Temos medo é de não termos vivido suficientemente; de chegarmos ao fim dos nossos brevíssimos dias, amanhã ou depois, com a sensação de que jamais estivemos verdadeiramente vivos; de que não fomos capazes de descobrir, minimamente, o que a vida significa.

     Aliás, de todos os temores que nos assolam, desde os mais primitivos, nenhum deles se pode comparar ao receio de termos jogado nossas vidas fora, sem nada para apresentar no seu final. Aqui está a razão mais profunda de termos medo da morte: não sabermos quem somos. Durante toda uma vida, alimentamos uma identidade inteiramente dependente de uma série infindável de coisas que a sustentam: nosso nome, nossa biografia, nossos títulos, reputação, família, emprego, amigos, bens materiais, dinheiro, comodidade e prazer, dentre tantas outras.

     O ritmo dos nossos dias é tão febril que a última coisa em que temos tempo de pensar, é a morte. Abafamos o nosso medo da impermanência, cercando nossa vida de mais e mais coisas, de mais e mais atividades, de mais e mais confortos e facilidades. Todo o nosso tempo e energia são investidos, até à exaustão, exclusivamente, para manter tais coisas. Parece mesmo ser este o nosso único propósito: manter tudo, do modo mais seguro e garantido quanto possível.

     Assim, nossa vida vem se tornando, cada dia mais, monótona, repetitiva, insignificante e desperdiçada em busca de banalidades, porque, lamentavelmente, não conhecemos nada melhor. É claro que algumas vezes nos sentimos mal a esse respeito, temos insônia e pesadelos, e acordamos no meio da noite, perguntando a nós próprios: "o que estou fazendo da minha vida?" Mas, nossos temores só duram até o café da manhã. Logo, saímos pela porta de casa e começamos tudo de novo.

     Isso faz-me lembrar um proeminente professor tibetano, chamado Patrul Rinpoche. Conta-se que ele, em vez de celebrar a passagem de ano, como todo o mundo faz, desejando um "feliz ano novo" às pessoas, costumava chorar nessa data. E quando lhe perguntavam por que chorava, respondia que estava triste ao ver tanta gente ainda despreparada para a morte, mesmo estando um ano mais perto dela. É precisamente isso! As pessoas gastam toda a sua vida se preparando, se preparando, se preparando... para chegarem ao final, despreparadas; certamente, por terem apoiado toda a sua segurança, em um suporte extremamente frágil e provisório.

     E, desse jeito, seguimos construindo os nossos castelos nas areias da vida. Até que, um dia, inesperadamente, a possibilidade concreta da morte, surge à nossa frente como um raio, desfazendo a nossa ilusão e expulsando-nos, impiedosamente, do nosso abrigo seguro. E agora? O que fazer? A quem recorrer? Em primeiro lugar e antes de tudo, acalmemo-nos! E mesmo acuados pelas pressões e urgências do momento, procuremos apaziguar o nosso coração. Afinal, não temos o poder de evitar o inevitável, quando este bate à nossa porta. O próprio Jesus morreu. E isso é o bastante para dizermos que Deus não nos livra da morte. Porém, Ele faz bem mais que isso: nos redime da "sombra da morte", da tentação de deixarmos que nossas vidas fiquem paralisadas ou sejam consumidas pelo medo de morrer. Ele nos confere o poder de evitar que a morte projete sua sombra estagnante sobre o tempo de vida que ainda temos; sejam dias, meses ou anos.

     Afinal, a cura para o medo da morte não é outra, senão, o sentimento de termos vivido suficientemente, profundamente. E, se não o fizemos até aqui, façamos agora, a partir desse exato momento. Não esperemos mais um só minuto. Deixemos os nossos lamentos pelo passado e abandonemos a nossa ansiedade pelo futuro. Mergulhemos de cabeça no momento presente e percebamos quantas coisas boas estão à nossa frente, disponíveis para a nossa felicidade, hoje, somente hoje. Talvez, amanhã, já não mais existam. Se assim o fizermos, aprenderemos a viver e, ao mesmo tempo, aprenderemos a morrer.

     Até porque, quando vivemos uma vida verdadeiramente humana, não precisamos procurar nenhuma recompensa fora dela. A própria vida, por si só, já é a recompensa. No mais, sabemos que o destino nos pode pregar uma peça e acabar conosco a qualquer instante; mas, também sabemos que a morte, por mais estranha que pareça, é uma contingência natural, sem muita relevância. Chegue quando chegar, que possa encontrar-nos preparados, totalmente envolvidos no presente e, sobretudo, vivendo a todo vapor.

     Nessa perspectiva, não importa o quanto nem quando tudo mude ou se dissolva à nossa volta, pois, a terra e o céu estão lá, onde sempre estiveram! Deus está lá, onde sempre esteve! Quanto a nós, pede-se, igualmente, que estejamos cá, onde estamos! E que façamos, agora, - nos limites e na grandeza do nosso isolamento - tudo o que nos for dado a fazer. Porém, com aquela redobrada atenção de quem não deseja perder mais nada, por saber que já perdeu demais.

     Prossigamos, então! E nos contentemos em viver um momento de cada vez; preenchendo cada dia, apenas, com o significado de um dia! Isso é tudo!